Entrevistas

Baixaki revela o segredo para se destacar da concorrência

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Um jovem curitibano cheio de instinto empreendedor vasculhava a internet quando teve uma ideia que julgou promissora: fazer um site de downloads focado no usuário. Enquanto os amigos debochavam do nome que ele bolou,
Gui Barthel lançava o Baixaki, em outubro de 2000. A página, que nascera na web 1.0 durante a explosão da bolha da internet, era administrada no escasso tempo entre a faculdade e o trabalho. Logo surgiu o primeiro anunciante e, com ele, a visibilidade e a oportunidade financeira de ficar independente. E assim o Baixaki cresceu até tornar-se o principal produto de uma nova empresa, o Grupo NZN (No Zebra Networks), responsável atualmente por 12 páginas que geram cerca de 1 bilhão de pageviews mensais, entre elas Tecmundo e Superdownloads. Para contar em detalhes o segredo para manter-se no topo depois de tantos anos de história, Gui Barthel conversou com a Revista W. Confira.

Revista W: De onde veio seu interesse pela internet e o tipo de empreendedorismo que nasceu com ela no início dos anos 2000?
Gui Barthel: Eu entrei no curso de ciências da computação da Universidade Federal do Paraná em 1998. À época, a bolha da internet estava prestes a estourar e, além dos estudos em sala de aula, o interesse pelo assunto me levou a fazer pesquisas mais elaboradas na rede. Logo, eu percebi que o Brasil era falho em alguns tipos de serviço on-line. Isso quando eles existiam por aqui. E, desde pequeno, quando confeccionava bonequinhos de Durepoxi para vendê-los na escola, eu sempre tive uma veia de empreendedor. Com o advento da internet, foi difícil frear esse instinto de criar negócios.

W: Como essa veia empreendedora inspirou a criação do site Baixaki?
GB: Era 1999, eu estava fazendo pesquisas de costume e deparei com um relatório da Cnet [empresa norte-americana que publica conteúdo sobre tecnologia] a respeito do site download.com. E logo pensei: também consigo fazer isso. O inglês ainda era mais distante para as pessoas e eu queria trazer aos brasileiros um conteúdo como o dos sites de fora. Mais do que oferecer programas para download, meu desejo era expor as funcionalidades e avaliações desses softwares, além de ensiná-lo a usar e a instalar os programas. Assim, em 1º de outubro de 2000 a ideia saiu do papel e o Baixaki foi ao ar.

W: Tudo isso aconteceu quando a bolha da internet estourava por aqui. O que você fez para o site sobreviver?
GB: Foi muito difícil, como é de se imaginar. Ninguém queria saber de internet quando eu lancei o Baixaki. As pessoas não tinham interesse e, muito menos, confiança no que surgia na web. O mesmo valia para os investidores. Por isso, o site não gerava dinheiro. Tive de me organizar: trabalhava pela manhã, ia para a universidade à noite e cuidava do Baixaki entre uma atividade e outra. Mantive o negócio com meu bolso por um bom tempo até que ele chamou a atenção de uma grande empresa virtual, o MercadoLivre.

W: Qual foi o papel do MercadoLivre na história do Baixaki?
GB: Fundamental. Em 2002, o MercadoLivre tinha o programa Mercado Sócio, que permitia a proprietários de pequenos, médios e grandes sites se afiliarem gratuitamente para aumentar a visibilidade. O objetivo era remunerar essas empresas por meio do volume de cadastros e comissões geradas pela publicidade exposta em suas páginas. Na época, o MercadoLivre ajudou muita gente que trabalhava de forma independente a conseguir um lugar ao sol. Eles foram nosso primeiro anunciante, trouxeram acessos e visibilidade para o Baixaki. Só aí conseguimos desenvolver novos produtos e, finalmente, fazer o dinheiro circular.

W: Atualmente o site de downloads faz parte do Grupo NZN. Em que momento o Baixaki fez com que você fundasse a empresa?
GB: Foi meio que inevitável, de certa forma. Tivemos de ir ao SEBRAE para abrir a empresa de maneira oficial e obter um CNPJ para receber os pagamentos do MercadoLivre. Além disso, estávamos crescendo e gerando receita relevante, o que tornou possível investir financeiramente no negócio. Isso me deu segurança para deixar o emprego e a faculdade para me dedicar exclusivamente ao negócio.

W: A história do grupo é marcada por parcerias com grandes portais brasileiros. Qual foi o papel dessas empresas na história do Grupo NZN?
GB: Ter apoio de grandes portais é fundamental para qualquer site que está começando. Manter um negócio é caro. Se hoje é complicado, imagina há dez anos. Ainda éramos desconhecidos e obter destaque era um desafio. Então, ter a tão esperada “barrinha” com o nome de um portal famoso no topo do site nos ajudou a provar que o conteúdo era bacana e valia a pena conferir. Essas parcerias trouxeram acessos e credibilidade, além da economia financeira.

W: Por quais portais os sites do NZN passaram?
GB: A primeira aliança do Grupo NZN foi com o IG, em 2003. Foi uma parceria amistosa que durou seis anos, mas eles queriam que vendêssemos apenas publicidade relacionada ao portal, e nós queríamos expandir o conteúdo publicitário. Então, em 2009, rompemos com o IG e iniciamos a parceria com o Terra. O portal nos deu a “barrinha” e toda a infraestrutura de que precisávamos para continuar fazendo nossos sites crescerem. Entre uma parceria e outra, lançamos o site Tudo Gostoso, que logo chamou a atenção do UOL. Nós não tínhamos nem servidor, mas o portal achou a ideia tão original que acolheu a página e nos ajudou a aumentar o número de acessos. Depois, em 2013, ficamos independentes.

W: O Tudo Gostoso tem uma história curiosa por trás da criação. Como surgiu a ideia do site?
GB: Minha esposa gosta muito de cozinhar e montar livros de receitas. Um dia ela comentou comigo que os passo a passo que encontrava na internet eram sempre profissionais, complicados e levavam tempo demais para cozinhar. Ela pediu, então, para que eu criasse um site simples, no qual ela e as amigas pudessem armazenar todos os seus cadernos de receitas e compartilhar experiências culinárias. Mas o que não imaginávamos é que, em pouquíssimo tempo, o site explodiria. De repente as pessoas passaram a incluir suas criações e o número de acessos disparou. Isso nos levou a fechar uma parceria com o UOL.

W: 2013 marcou a independência do grupo. O que foi preciso ser feito para a empresa se manter consistente?
GB: Os sites cresceram mais. Assim, conseguimos estabilizar a empresa, bancar os servidores e pagar a equipe tranquilamente. Foi aí que percebemos que poderíamos continuar de maneira independente. Vale comentar que, durante anos de pesquisa, percebi que o Brasil não tinha grandes sites especializados, que nós chamamos de verticais. Víamos gigantes da tecnologia como Google, Microsoft, Facebook e mesmo grandes portais explorarem dezenas de assuntos simultaneamente, mas quase não havia sites que atingissem públicos específicos. O plano então foi moldar a empresa para agrupar essas páginas com foco exclusivo. E deu certo, pois hoje somos responsáveis pelos maiores representantes dessa categoria no país. Isso é o que nos motiva a continuar investindo e inovando.

W: Quais são os sites que fazem parte do Grupo NZN hoje?
GB: Inicialmente, além do Baixaki e do Tudo Gostoso, tínhamos Baixaki Jogos, Minha Série, Tecmundo, Superdownload, Mega Curioso e Em Resumo. No segundo semestre de 2014 o Grupo NZN se fundiu ao Click Jogos, e a fusão nos trouxe os sites Jogo de Meninas, Robô Laranja e Joguinhos, voltados para o público infantil. Todos os negócios, principalmente os mais antigos, já passaram por reformulações e ajustes para levar aos usuários a melhor experiência de usabilidade e conteúdo.

W: A fusão com o Click Jogos ainda é recente. Quais os objetivos dessa parceria?
GB: O pessoal de tecnologia conversa bastante. Estamos sempre em contato, trocando ideias. As parcerias surgem daí. Com a fusão, não foi diferente. Durante um almoço com a equipe do Click Jogos começamos a falar sobre o quanto gostaríamos de continuar crescendo no cenário brasileiro, investir em novas tecnologias e, principalmente, no quanto isso é caro. Eles lidavam com os mesmos objetivos e custos, então chegamos à conclusão de que uma parceria seria bacana para o financeiro e a produção de ambas as empresas.

W: Como se deu o processo de fusão?
GB: Nós procuramos ajuda de uma empresa especializada, pois precisávamos captar dinheiro para agilizar o processo de junção do Click Jogos ao Grupo NZN. Para isso, entrevistamos cerca de 60 empresas que se interessaram na parceria e acabamos escolhendo o fundo de investimentos norte-americano H.I.G Capital como sócio. Acredito que boa parte das pessoas não saiba, mas a bolsa brasileira não aceita sites de tecnologia, e já queríamos investir na bolsa dos EUA há algum tempo. A H.I.G tinha experiência nesse mercado e uma coisa levou a outra.

W: Com esse conglomerado de sites de sucesso, como o Grupo NZN garante que o público receba um conteúdo bom e seguro?
GB: Nós temos a nona maior audiência do Brasil, e não é à toa. O objetivo é chegar mais próximo do público e levar o que ele precisa e quer saber. Hoje, nossa equipe é formada por 180 pessoas. Desse número, 110 se dedicam à criação de conteúdo para oferecer 200 textos diários e garantir que os sites fiquem bem abastecidos e atualizados. No Grupo NZN, há também a área de vídeo, que cria 20 produtos por semana, e uma equipe especializada em infográfico. Quanto ao Baixaki, especificamente, para garantir que os downloads sejam seguros, nós testamos todos os produtos antes de colocá-los no ar. Também fazemos questão de escrever nossa experiência de uso destacando para o usuário os prós e contras da instalação do software. Além disso, para oferecer mais comodidade ao internauta, o site hospeda o programa em um servidor próprio e oferece o link para download direto do desenvolvedor.

W: Qual o segredo do Baixaki para se manter líder há tantos anos em meio a tantos concorrentes do gênero?
GB: Apesar dos inúmeros sites de download que se vê na internet brasileira, na prática não temos concorrência direta. É difícil para um site menor ou mais jovem fazer o que o Baixaki faz, por conta dos altos custos. Muitos deles não testam produtos nem têm a agilidade que nosso site tem, além de não terem softwares exclusivos e as parcerias poderosas que conquistamos ao longo dos anos. Mesmo assim, tentamos nos manter quatro passos à frente do segundo colocado e entregar mais do que qualquer concorrente. O segredo para se destacar é a atualização. Levar conteúdo novo todos os dias para o usuário é fundamental para vencer na web.

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