Entrevistas

Brasileiro aprende na raça a empreender

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Um empreendimento (on-line ou não) tem 73% de chance de sobreviver ao primeiro ano. Os dados são do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae-SP) e representam a realidade em São Paulo e, em geral, no Brasil. “Uma das principais causas de mortandade de uma empresa é a falta de planejamento”, aponta Renato Fonseca, consultor da entidade.

Graduado em engenharia mecânica de aeronaves pela Universidade de São Paulo, com especialização em Gestão Empresarial pela EPGE-FGV, Fonseca está desde 1994 no Sebrae-SP. De lá para cá, ele escreveu o livro Conexões Empreendedoras (Ed. Gente) e é coautor dos títulos Educação Empreendedora (Ed. Elsevier) e Empreendedorismo Inovador (Ed. Évora). O consultor também dá aulas de pós-graduação nas áreas de empreendedorismo, gestão do conhecimento, gestão da inovação, marketing, redes sociais e estratégia.

Nesta entrevista, Fonseca fala sobre as particularidades do empreendedor brasileiro, explica as principais razões que levam uma companhia que ainda está no primeiro ano de vida a fechar e aponta os principais pontos positivos de ser seu próprio patrão.

Revista W: Há um perfil do empreendedor brasileiro, seja ele do mundo digital ou não?
Renato Fonseca: Há. De forma geral, é uma pessoa atenta a oportunidades, que tem afeição ao risco. Ele lida com essa realidade de forma calculada, mas sabe que empreender não é fácil. Trata-se de uma pessoa que deve ser perseverante para enfrentar dificuldades.

W: Muitas vezes, o empreendedor começa algo por uma paixão. Vamos supor que o cidadão goste de cultivar flores. Então, ele monta uma loja de flores na internet. Na prática, ele vai deixar de trabalhar com flores e passar a trabalhar com administração, gestão.
RF: Sim, esse é um ponto importante para empreender. Na prática, esse profissional será o ponto de contato entre sua empresa e seus clientes. Ele deverá ter itens como persuasão para poder ganhar mercado.

W: E nessa caminhada quais são os principais erros?
RF: A pesquisa de mortalidade empresarial mostra que o principal problema é a falta de planejamento. O desconhecimento do nicho em que irá atuar é um problema sério, que leva muitas empresas ao fim. Em resumo, são três pontos que devem ser analisados e observados com cuidado: gestão financeira, gestão comercial (como atrair e manter o cliente) e gestão de processos (a parte interna da empresa).

W: O Sebrae mantém cartilhas para ajudar quem está começando. Mesmo tendo contato com esses materiais, há mais atalhos para evitar erros?
RF: Deve-se estar preparado, ao identificar uma oportunidade, para aproveitá-la e contar com reveses. No planejamento, o empreendedor pode fazer uma simulação de resultados extremamente pessimista. Se isso ocorrer, há uma neutralidade no efeito emocional – o profissional não ficará chocado com os reveses. Isso também dá uma sensação de experimentação ao empreendedor. Conhecer a cadeia de fornecimento, o tipo de serviço que fornecerá e de quais dependerá e o seguimento do cliente ajuda.

W: Há uma taxa de mortandade de novas empresas de 27%. O que se pode entender com esse número?
RF: Há países com taxas maiores de mortandade. Entretanto, quando o fechamento de empresas tende a zero também não é bom sinal. Isso mostra que a economia não gira, não roda e há poucas oportunidades. Esse número no Brasil mostra que o empreendedor brasileiro mudou. Em vez de abrir por necessidade, investe por oportunidade. Isso é comum em países em que a economia não está e não é tão debilitada.

W: De acordo com o Índice de Cidades Empreendedoras (ICE), elaborado pela filial brasileira da Endeavor, Florianópolis e São Paulo são as duas cidades do País mais propícias ao empreendimento e com mais empreendedores. Salvador, a menos. Quais fatores levam a isso?
RF: O bom ambiente empreendedor tem características próprias. Elementos como mão de obra qualificada, cadeia de fornecimento estabelecida, aspectos legais do município são alguns deles. Em muitos casos, as pessoas também procuram as facilidades de certas cidades, como qualidade de vida ou bom networking.

W: Quais são as principais vantagens de abrir seu próprio negócio no mundo digital?
RF: A possibilidade de realização pessoal conta muito. Se você acredita em seu protagonismo, em seu poder decisório, empreender é algo que pode agradar muito. A possibilidade de crescer por meio de suas próprias escolhas e até mesmo se realizar financeiramente são pontos que podem ser considerados como vantagens.

W: E as desvantagens?
RF: Eu não sei se são desvantagens, mas empreender pede algumas renúncias. Você terá menos tempo para outras atividades, será o último da folha de pagamento. Há certo sacrifício, de início, pelo menos, para conseguir uma boa condição. Se lida muito próximo ao risco, há muitos imprevistos e isso faz com que se tenha um dia a dia atribulado, sem rotina. É uma característica da coisa, assim como pode ser, também, a necessidade de fechar o negócio.

W: Essa possibilidade, em muitos países, é considerada uma vantagem, um aprendizado.
RF: Sim. Fechar a empresa pode fazer parte do negócio e, atualmente, não se vê isso como um fracasso. É entendido que faz parte do jogo. Óbvio que não é algo do tipo “tudo bem”, mas está longe de ser uma catástrofe. É uma condição de mercado. Na área digital, por exemplo, isso é bem comum. Há uma taxa de risco muito grande, porque se trata de inovação. Deve-se estar preparado para o insucesso. O qual pode, inclusive, gerar sucesso lá na frente.

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