Entrevistas

Crianças programadoras

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Idealizador da Startup Cursos, uma escola de treinamento em tecnologia, conta como e por que é preciso ensinar crianças a programar

André Bechara já tinha passado por inúmeras empresas de tecnologia como especialista em Ciências da Computação. Decidiu sair do Brasil para montar a própria desenvolvedora de softwares que acabou diretamente pela crise financeira de 2008. Diante das limitações de negócios na época, ele resolveu procurar alternativas e, quem sabe, empreender de novo. “Encontrei esse nicho de educação, para ajudar pessoas a programar”, relembra. Assim nasceu a Startup Cursos, uma escola de treinamento que ensina crianças a programar e desenvolver jogos. Ele contou à Revista W mais detalhes sobre a sua trajetória neste inusitado projeto:

Revista W: Como surgiu essa ideia?
André Bechara: Estudei computação e trabalhei muitos anos com desenvolvimento de software. Sai do País para montar uma fábrica de softwares mas depois da crise econômica de 2008 o mercado ficou muito ruim. Por isso busquei outras alternativas e encontrei esse nicho de educação, para ensinar as pessoas a programar para computadores. Eu já dava terinamento para estagiários nas empresas em que trabelhei. O pessoal chegava meio cru da faculdade, não tinha base entre o que via lá e o que acontecia no mercado de trabalho. Então, comecei com foco nos adultos, com cursos de desenvolvimento de aplicativos e só depois abri um curso voltado para jogos. Percebi que havia muita gente nova, que nunca tinha programado games e tinha muito interesse. Questionei se não havia uma forma de ensinar criançar a programar jogos ao menos. Fiz uma pesquisa com o que já tinha no mundo em metodologias e criei um programa baseado no que encontrei.

W: Como funciona o método de ensino?
AB: Ele é baseado em desafios crescentes. Passamos do programa mais básico para o mais complicado. Sempre é um problema prático. Ao contrário do que vemos nas faculdades, ensinamos a teoria e deixamos que o aluno pratique. Acredito que só se aprende programação na prática. Tudo faz parte de uma necessidade em resolver um problema, buscando soluções. Por isso, para crianças, partimos do jogo mais simples, apresentamos a ferramenta de programação e aí o aluno tenta sozinho resolver a questão. E mostramos toda a teoria por trás.

W: Você acredita que essa geração tem mais facilidade para aprender códigos?
AB: Sim, Estou impressionado com essa nova geração. Para se ter uma ideia, se eles têm alguma dúvida vão sozinhos para o YouTube e buscam como fazer nos vídeos. Às vezes, pergunto para algum aluno: “Como você resolveu isso sozinho?” e ele responde que achou a solução na internet. São crianças que já tem o hábito de buscar para aprender alguma coisa. Elas usam muito bem as ferramenas de pesquisa e aprendem rápido.

W: Quais são as vantagens em aprender código desde cedo?
AB: São várias. A principal é desenvolver o raciocínio lógico. Para programar é preciso dividir um problema em pedaços menores. Afinal, o computador é “burro” e é preciso que você quebre tudo como se fosse uma receita de bolo. Esse processo de desmembrar um problema é que vai ajudar o aluno em todas as carreiras ligadas à exatas como matemática, engenharia, física, por exemplo. Além do raciocínio lógico, também há também a parte criativa. Elas criam histórias, personagens, como será a pontuação do jogo, então são trabalhados os dois lados.

W: Qual é a idade média dos alunos?
AB: São blocos de 8 a 12 anos, para o infantil, de 12 a 16 no juvenil e a partir de 16 para adultos.

W: Atualmente o mercado sofre para encontrar profissionais qualificados. Você acredita que iniciativas como essa podem resolver isso no futuro?
AB: Trabalhei muito tempo com engenharia de software e realmente existe uma falta de capacitação. Como a área de tecnologia muda rápido, tudo o que uma pessoa autodidata sabe acaba se tornando rapidamente obsoleto. Mas para formar os conhecimentos básicos de programação é preciso aprender a formar algoritmos, resolver problemas e trabalhar com raciocínio lógico. As tecnologia podem até mudar, mas os fundamentos necessários para programar são os mesmos, não mudam de uma linguagem para a outra.

Publicado originalmente na edição 160 da Revista W. Toda e qualquer reprodução deve citar a fonte. 

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