Entrevistas

Wanderley Abreu: da NASA para o mundo

Wanderley Abreu Jr

Adolescente, Wanderley Abreu invadiu máquinas da agência norte-americana; décadas depois, é CEO de empresa de segurança, drones e reconhecimento facial

Wanderley de Abreu Júnior tem 36 anos. Com 6 anos, ganhou seu primeiro brinquedo eletrônico, um computador. Depois, um Atari. Aos 12 anos, pediu um modem de aniversário. Adolescente, invadiu computadores da NASA. Três décadas depois de seu primeiro contato íntimo com tecnologia, está em sua terceira empresa (uma delas, uma boate montada no Rio de Janeiro e abandonada dois anos depois). A Storm Security é uma companhia focada em segurança em tecnologia. Ela atua com drones, reconhecimento facial e outras inovações.

Com uma história de empreendedorismo e atuação em áreas diferentes (Abreu já ajudou o Ministério Público a caçar pedófilos na internet, atuou com sistemas de satélites, estudou no MIT, prestou serviços à NASA e ao FBI), o CEO da Storm tem bastante história para contar. Na entrevista, o especialista em segurança fala um pouco de sua trajetória até abrir sua atual empresa (a segunda Storm, já que a primeira ele vendeu quando ainda estava na faculdade). O profissional também fala dos desafios de atuar em uma área que exige estar atualizado e da diferença em atuar no Brasil e nos EUA – a Storm está presente também em Nova York.

Revista W: Sua história de empreendedorismo começou com a invasão aos computadores da NASA?
Wanderley Abreu: Isso me ajudou quando montei minha empresa, por conta da reputação que tinha. Mas, de fato, tudo começou quando ainda estava na faculdade. Eu fazia engenharia mecatrônica no Rio de Janeiro e trabalhava com segurança e tecnologia. Por um tempo, estagiei no Ministério Público, ajudando a procurar pedófilos e outros criminosos na internet. Comecei a me especializar e, quando percebi, atuava em uma área que nenhuma empresa no Brasil atendia. Foi esse o impulso para abrir a Storm em sua primeira versão.

W: Da primeira versão da Storm até a segunda, fundada em 2008, você ainda teve outro projeto de empreendedorismo. Mas não foi digital: abriu uma boate no Rio de Janeiro. Como foi essa transição?
WA: Quando vendi a Storm, fiz um acordo com a multinacional que a comprou. Ela levou todos os meus clientes e eu não poderia mais trabalhar com segurança por quatro anos. Sendo assim, resolvi investir em um night club.

W: Por quê?
WA: Basicamente, para pegar mulher. [risos] Passei a vida inteira estudando. Aí, achei que era uma boa investir em algo para me divertir.

W: E deu certo?
WA: Bom, gastei muito, muito dinheiro. Torrei muito em dois anos. Fiz uns cursos de piano, de chef de cozinha. Então, meu pai deu um puxão de orelha e voltei a estudar na minha área.

W: No Massachusetts Institute of Technology (MIT), um dos principais centros de ensino de tecnologia do mundo?
WA: Isso. No MIT. Lá, estudei criptografia, segurança.

W: Nessa época você já pensava em voltar a empreender?
WA: Ainda não. Quando saí do MIT, fui para a Europa. Uma vez lá, comecei a me envolver com projetos de sistemas críticos. Mais uma vez, vi que era algo que eu poderia explorar, que ainda era incipiente no Brasil. Foi aí que montei a Storm, em sua segunda versão.

W: Com exceção da boate, você empreende por pioneirismo, com inovação. Como é isso?
WA: É bom e ruim. É bom porque, por ser o primeiro em algo, consigo bons profissionais, aqueles que realmente se destacam, por um preço justo. É bem mais barata a mão de obra de algum setor que está começando do que a de um que já está formado. A parte ruim é que, no Brasil, não se aposta em inovação. No País, prefere-se optar por fórmulas antigas antes de apostar no novo.

W: Você tem um escritório nos Estados Unidos, em Nova York. Qual é a diferença do mercado norte-americano para o brasileiro, quando o assunto é empreendedorismo digital?
WA: A concorrência nos Estados Unidos é muito alta para tudo. No Brasil, você encontra áreas em que pode apostar. Estou trabalhando atualmente com reconhecimento facial e drones. Faço sistemas embarcados de alta performance. Aqui no Brasil, por exemplo, somente a Storm faz isso. Nos Estados Unidos, há mais concorrência, bem forte e sedimentada.

W: De acordo com analistas do Sebrae e alguns outros especialistas, um dos gargalos do empreendedorismo é a venda de produtos ou serviços. Como sua área é inovação, não parece simples comercializar seu trabalho. Como isso funciona na Storm?
WA: Há as duas formas. Se vamos desenvolver algo novo, normalmente fazemos parcerias e tocamos o projeto. Quando o assunto é segurança, então os parceiros vêm atrás de nós. Atualmente, temos trabalhado muito com a Globosat. Além disso, a Storm já tem desenvolvido sistemas ligados a reconhecimento facial e drones. Nesses casos, procuramos clientes e eles também nos contatam.

W: Como está o mercado de drones no Brasil?
WA: Entramos no mercado de veículos aéreos não tripulados. A estratégia foi criar drones com 100% de componentes eletrônicos produzidos no Brasil. [Nota da W: no final de 2014, Abreu venceu uma concorrência para fornecer drones para o Exército brasileiro.]

W: Desde a história da NASA até hoje, qual foi a maior dificuldade que você enfrentou?
WA: Passar no MIT. Tive que colar como um louco de vários chineses [risos].

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