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GuiaBolso: por uma economia portátil

SÃO PAULO, SP, BRASIL,  03-04-2014: Retratos de fundadores de site Guia Bolso. (Foto: Simon Plestenjak)

Benjamim Gleason, fundador do GuiaBolso, conta como seu app atraiu 500 mil usuários interessados em resolver seus problemas financeiros

Benjamin Gleason é um dos fundadores do GuiaBolso, plataforma eletrônica que organiza finanças pessoais e tem versões web e em forma de app. O empresário nasceu nos Estados Unidos e é apaixonado pelo Brasil – mora no País há 7 anos. Formado em economia, ele fez mestrado em finanças pela Wharton School, na Pensilvânia, Estados Unidos. Gleason ainda trabalhou como consultor em empresas como McKinsey & Co. Atuou no Groupon Brasil e ajudou a empresa a se consolidar no mercado brasileiro. Nesta entrevista, ele conta como seu app conquistou o bolso dos brasileiros e dá dicas de como criar um serviço de sucesso na web.

Revista W Você é sócio e fundador do GuiaBolso ao lado do Thiago Alvarez. Como começou essa história?
Benjamin Gleason Há 7 anos, trabalhamos juntos na consultoria norte-americana McKinsey & Co. Por acaso, entramos no mesmo dia, passamos pelo treinamento básico e chegamos a atuar em alguns projetos. O Thiago continuou por lá até fundar o GuiaBolso. Ele estava trabalhando com os grandes bancos – viu o boom de crédito no País e depois o aumento de inadimplência. Com isso, ficou muito nítido que as pessoas realmente não sabiam controlar finanças nem entendiam bem produtos bancários. Ao mesmo tempo, eu havia saído da McKinsey e era diretor geral do Groupon no Brasil. Com essa experiência, percebi que depois que as compras coletivas estouraram por aqui, milhares de brasileiros começaram a fazer compras on-line pela primeira vez.

W De onde surgiu a ideia de criar uma ferramenta de finanças?
BG Thiago e eu começamos a conversar sobre fazer algo novo, do zero, para tentar resolver o problema da falta de entendimento financeiro das pessoas. Queríamos recorrer à tecnologia e à internet. Já faz três anos que fundamos o GuiaBolso e nossa missão continua sendo ajudar as pessoas a tomar controle de suas vidas financeiras. Hoje, a base dessa solução é uma ferramenta de controle financeiro automática. O GuiaBolso não tem acesso à área de transferências do home banking do cliente, apenas à página de saldo/extrato.

W O processo é 100% automatizado?
BG O usuário não precisa digitar nenhuma informação – nosso sistema puxa tudo automaticamente da conta bancária. O ponto forte do GuiaBolso é que ele não requer operações manuais. O usuário não precisa fazer lançamentos nem anotar gastos. Essa é, geralmente, a maior dificuldade das pessoas em relação ao controle financeiro. Vemos isso no mundo inteiro, então toda vez que alguma solução parecida surge nos Estados Unidos, na África, na Ásia e na Europa é sempre com base na automatização. Foi o que o GuiaBolso conseguiu fazer.

W Como o GuiaBolso cresceu?
BG No início nós mesmos bancávamos o projeto. Depois, conseguimos colocar um produto no ar já com alguns desenvolvedores. A partir daí, levantamos a primeira rodada de financiamento – e já passamos por outras. É isso que nos permite continuar crescendo ao longo desses anos. Temos um time de 25 pessoas e nos tornamos uma startup relativamente grande para o Brasil.

W Você já tinha se envolvido com empreendedorismo antes do GuiaBolso?
BG Sim, já. Quando saí da McKinsey & Co., fiz uma startup com uma solução de pontos de venda na nuvem. Era uma tecnologia nova no sistema de gestão de restaurantes e pequenas lojas em cloud computing. Isso foi nos Estados Unidos, durante um ano. A empresa continua lá. Depois, eu vim ao Brasil para iniciar o Groupon, que apesar de ter crescido muito foi uma experiência de startup. Saímos do zero e, no final das contas, acabei participando da abertura de capital. Fui CFO da América Latina para o grupo. Então, primeiro passei por um processo de empreendedorismo no qual a empresa não cresceu da maneira que queríamos. Depois, fui para o Groupon, que evoluiu muitíssimo. Agora, com o GuiaBolso, estamos com um crescimento forte e um pouco mais sustentável.

W Qual é a vantagem do GuiaBolso em relação às planilhas de gastos?
BG A base é a automatização. Ele conecta tudo com contas bancárias e com a fatura do cartão de crédito. Basta entrar no app que ele puxa todas as últimas transações. Essa é a primeira parte. Na segunda, ele faz uma categorização. Pega cada gasto e identifica automaticamente se foi transporte, moradia, educação ou alimentação. Com isso, o GuiaBolso mostra tudo de forma organizada. Sem nenhum esforço, o usuário tem essa visão de como e quanto gastou. São eliminadas umas duas horas de trabalho lançando e anotando despesas ou fazendo importações de extrato. Ele permite que as pessoas foquem somente no entendimento das finanças e na tomada de decisões, tirando a parte chata e manual.

W A ferramenta lança as despesas diretamente dos extratos bancários. Esse processo foi bem aceito pelos usuários?
BG Foi supertranquilo. Pensamos muito em como seria a experiência e também olhamos outros países. O Mint, nos Estados Unidos, já está com mais de 10 milhões de usuários. Ele foi o pioneiro. Por isso, fizemos algo muito parecido com ele. O sistema pede a senha do internet banking, que só pode ser usada para visualização e não para movimentação de dinheiro. Apenas com essa senha, já conseguimos fazer uma conexão com a conta para puxar os gastos. Acho que o fato de aparecermos muito na mídia também facilita na hora de passar confiança. Nó nos surpreendemos com a quantidade de pessoas que precisam desse tipo de ajuda. Então, muitas vezes, uma dúvida inicial não acaba sendo uma barreira.

W Qual a fonte de renda do GuiaBolso, já que a plataforma não cobra por nenhum tipo de serviço?
BG Até hoje não focamos em renda. Isso foi uma estratégia alinhada com os nossos investidores. Procuramos criar uma plataforma que ajudasse muitas pessoas e tivesse muitos usuários. Assim, podemos nos tornar relevantes no sistema financeiro. É bem parecido com a estratégia do Facebook, que só passou a pensar na monetização depois.

W Li um artigo seu sobre a regra 50-15-35 para poupar dinheiro. Como ela funciona?
BG Isso é algo que ajuda muito. É fácil falar que as pessoas deveriam economizar e manter uma poupança, mas é difícil saber como começar e estipular metas. Digamos que o ideal seja gastar em torno de 50% de sua renda em despesas fixas, como aluguel, educação e plano de saúde. Enquanto isso, 15% devem ser separados para poupar, investir, quitar dívidas e parar de pagar juros. Os outros 35% podem ser dedicados a gastos de estilo de vida, como restaurantes, cinemas e lazer. O GuiaBolso apoia isso diretamente. Lá, você consegue fazer esse planejamento com as categorias de gastos essenciais.

W Quais são as dicas para quem quer tirar um projeto do papel?
BG Acredito que são três coisas. A primeira trata-se de identificar um problema real. Acho que nos EUA existem muitas startups fazendo coisas malucas. Elas são legais, mas não necessariamente resolvem um problema. No Brasil, temos muita dificuldade e ineficiência que dá para atacar. Identificar problemas reais faz com que o processo para emplacar no mercado fique mais fácil. A segunda parte é estar em um mercado relativamente grande para ter a possibilidade de crescer. Com isso, é possível lançar o produto certo para o mercado certo. O terceiro elemento é o time. É necessário pensar em ter um time complementar e forte. Às vezes, as pessoas querem levantar investimentos com investidores antes de ter um time dedicado e full time. Acho que isso é muito difícil de fazer no ambiente atual de founding. Então, é necessário se arriscar um pouco mais, criar protótipos e procurar investidores externos.

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