Entrevistas

O app de R$ 20 milhões

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Confira a trajetória do brasileiro que criou um aplicativo de pergunta e resposta, o Qranio, e como ele conseguiu investimento para seu projeto

Fazer um app de perguntas e respostas e transformá-lo em um negócio de sucesso foi o grande feito do mineiro Samir Iásbeck. Ele criou o aplicativo multiplataforma Qranio e, graças ao seu espírito empreendedor, conseguiu emplacar o projeto que, segundo ele, tem um valor estimado em R$ 20 milhões. Em uma conversa com a Revista W, Iásbeck contou como conseguiu sair de um cenário em que batalhava para conseguir pagar seus funcionários, dar a volta por cima e ter um app milionário, que tem como sócia a incentivadora de startups da Telefônica Vivo, Wayra.

O aplicativo traz perguntas sobre conhecimento gerais, música, filmes e matérias escolares. “O Qranio escolhe o quiz como fórmula para misturar as duas coisas, porque é altamente engajante e pega várias faixas etárias”, explica. Cada resposta correta gera Qi$, a moeda virtual do aplicativo, que pode ser trocada por prêmios reais, que variam desde canecas até jantares em restaurantes afiliados. Ele funciona em smartphones com Android e iOS, Blackberrys, e pode ser jogado por SMS, pela web ou via Facebook.

“Eu queria fazer algo que unisse conhecimento e aprendizado de uma forma divertida. Desloquei duas pessoas da minha equipe de software para produzir o Qranio, mas ele só dava prejuízo”, conte ele, lembrando do começo difícil como empreendedor. Determinado a fazer aquilo dar certo, veio do interior de Minas Gerais para a capital de São Paulo procurar investidores, mas não conseguiu ninguém interessado em colocar dinheiro no projeto. De volta a Juiz de Fora, resolveu investir dinheiro próprio para pagar funcionários.

No final de 2011, ele recebeu um e-mail de um amigo, dizendo que a Vivo estava com um programa, o Wayra, que tinha como foco acelerar o desenvolvimento de startups. Ele resolver se inscrever e veio para o evento na capital paulista. “Fui, mesmo que fosse só para aprender com as outras empresas, porque achei que não tínhamos nenhuma chance”, conta. Na época, o empreendedor nem sabia o que era uma startup: “pedi ao meu colega que buscasse na internet o que era essa palavra que eles usavam tanto nas palestras. A gente tinha uma startup e nem sabia disso”. Segundo ele, o importante é fazer o trabalho pela essência dele, sem pensar em conceitos e rótulos, e aí ver o que você tem pronto.

Muito esforço, dedicação e ideias inusitadas

Mesmo sem ter conseguido o investimento, a equipe continuou trabalhando no Qranio e desenvolvendo melhor o aplicativo. A Vivo chamou Iásbeck novamente, dessa vez para a Campus Party 2012, para participar de um concurso contra mais de 200 startups, sem investimento no final. Mesmo que não tivesse dinheiro envolvido no prêmio, ele resolveu participar. Durante o evento, foi explicando de pessoa a pessoa como o Qranio funcionava e pedindo votos.

Eles ganharam o concurso por terem a melhor performance na apresentação. Em vez de explicar o que era o Qranio e como ele funcionava, Iásbeck contou com a ajuda do humorista Gustavo Mendes, que estava hospedado no mesmo hotel que a equipe. “Pedi a ele que gravasse um vídeo para o Qranio, que seria exibido no dia seguinte, durante a minha apresentação. Nele, nós conversávamos via Skype e ele faria piadas e brincadeiras, inclusive falando que minha apresentação estava muito chata”, relembra. O vídeo foi um sucesso, e atraiu vários visitantes ao passar no telão, porque parecia que era ao vivo.

O Qranio venceu com 98% dos votos, mas continuava sem investimento. Porém, a Vivo entrou em contato com eles novamente, chamando a equipe para uma conversa, e incluiu o aplicativo no programa Wayra. Além do dinheiro investido, em poucos meses a Wayra se tornou sócia do Qranio. O que chamou a atenção dos investidores foi que o aplicativo havia passado de 2 mil usuários em novembro de 2011, para 20 mil em fevereiro de 2012.

Como ir mais longe

Mas somente esse investimento não seria suficiente para colocar todas as ideias de Iásbeck em prática. Quando vinha do interior de Minas para São Paulo, ele tentava aproveitar ao máximo o tempo na capital e se encontrar com pessoas que pudessem se tornar investidoras. “Toda noite, eu mandava ao menos 40 mensagens no LinkedIn para as pessoas que gostaria de conhecer, tentando agendar uma reunião. Consegui ter uma agenda lotada todas as vezes que precisei viajar”, explica ele, mostrando que é preciso correr atrás e fazer todos os contatos possíveis para divulgar e tornar o projeto conhecido.

Em novembro de 2012, ele conseguiu um investimento de R$ 500 mil. “Mas foi de alguém fora do circuito de startups. Procurar fora do ecossistema de investidores é uma ideia boa para quem está começando”, indica para outros empreendedores. Segundo ele, o Qranio só atingiu essa valorização de  milhões de reais, com todo esse esforço. “Mas o Qranio não deve valer tudo isso, porque a startup precisa ser ágil, e é preciso muito trabalho para transformar isso no valor real, não é só o quanto se acha que vale. É quando o empreendedor esquece desse detalhe que ele quebra”, explica.

Além disso, ele trabalha em diferentes projetos dentro do próprio Qranio, para manter a inovação e aumentar o número de usuários. Iásbeck conta que pretende expandir para outros países: “as conversas já estão encaminhadas, e queremos começar a atuar fisicamente em outros países além de Brasil e Portugal. O México é nosso próximo investimento”. A equipe completa do Qranio conta com cerca de 30 pessoas, espalhadas entre Juiz de Fora, São Paulo, Rio de Janeiro e Lisboa.

Outro projeto é firmar parcerias com empresas e montar quiz personalizados para ela, sob encomenda, como foi o caso da parceria com a Fiap. “Nós desenvolvemos um ranking separado para eles, e entre os usuários, quem tivesse o maior desempenho, ganhava uma bolsa de estudos”, explica. Essa é uma maneira de diversificar o conteúdo e os prêmios. “Estamos fechando parcerias com times de futebol, para fazer quizes sobre a história de cada um. Nós queremos tornar a educação algo mais divertido e transformar o Qranio em uma plataforma de games voltados à educação, sobre vários assunto de todo o mundo”, assegura ele.

*Publicado originalmente na edição 165 (de abril) da Revista W. Todos os direitos reservados.

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