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O investidor que é um anjo

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Entenda como pensam esses investidores e atraia-os para sua startup

No mundo digital, há diversas formas de dar vida a uma ideia e ganhar dinheiro com ela. Crowdfunding e incubadoras são algumas. Outra saída, muito popular, é tentar recorrer a investidores anjos. Esta última alternativa pode parecer um sonho distante, já que nem sempre se sabe como chegar a esses empresários que se dedicam a desembolsar um bom dinheiro para ideias com potencial de crescimento e que, após a ação, aguardam retorno financeiro pela “boa ação”.

Para entender o que esses profissionais buscam, a Revista W conversou com especialistas no assunto – e com os próprios anjos. Ao traçar um perfil do que eles fazem, como é seu dia a dia e o que pensam, pode ser mais fácil se aproximar deles. De uma ideia na cabeça e um projeto em baixo do braço, ao sair de uma reunião com um investidor anjo, seus planos podem virar realidade, tanto no mundo digital como no físico.

Quem são

Os investidores anjos fornecem rodadas de patrocínio e financiam ideias que parecem rentáveis. Entretanto, o foco da parceria entre um anjo e um empreendedor não é só dinheiro. O processo funciona como uma forma de mentoria, já que esses executivos endinheirados também compartilham suas próprias experiências.

A prática do investimento anjo ainda é um tanto conservadora no Brasil, afinal, não é todo mundo que aceita colocar dinheiro em risco em vez de deixá-lo seguro na poupança. Vale lembrar que, nesse ramo, não existe sucesso sem risco. Grandes empresas como Apple, Microsoft, Fedex e Google foram desenvolvidas na base de aportes anjos.

Investidores anjos são aqueles que contam com uma quantidade razoável de dinheiro para investir em ideias, que podem dar lucro em longo prazo. O processo é um investimento de risco, por isso, exige racionalidade e experiência na área. “Antes de se tornar um investidor anjo, a pessoa deve passar pelo menos um ano convivendo e aprendendo sobre o mundo dos negócios. Ela pode participar de feiras, conversar com outros investidores para avaliar possíveis oportunidades de sucesso”, explica José Carlos Aronchi, que é consultor do Sebrae.

Além de servir de base para conhecer como o processo funciona e analisar casos que foram para a frente ou não, o tempo de estudo também deve ser usado para ampliar a rede de contatos do investidor. Conhecer pessoas é um fator importante na hora de investir em uma startup, e pode abrir portas para o sucesso do negócio.

“São pessoas bem-sucedidas, que desejam transmitir essa experiência de vida para evitar que os futuros empreendedores cometam erros já conhecidos”, afirma Cassio Spina, presidente da organização Anjos do Brasil. Ele também acredita que o investidor se preocupa com dinheiro, mas em segundo plano. “A intenção principal desses empresários é a busca pela satisfação de construir algo novo”, completa.

processo O investidor anjo deve estar de acordo 50 revista W revista W 51 investidores especial Página da Microsoft: empresa que começou nos moldes de “garagem” também teve aportes anjos em usar pelo menos 10% do valor total de seu patrimônio. “Normalmente, a primeira rodada de aporte varia de R$ 10 mil a R$ 70 mil. Mas esse valor é só o começo, e também é muito menor do que o que costumamos ver nos Estados Unidos”, afirma Aronchi.

O primeiro investimento é feito para ver se o negócio realmente tem potencial para deslanchar. Se tudo der certo, a startup recebe outras rodadas com valores maiores. Em caso da parceria não vingar, o investidor anjo perde apenas o investimento inicial. “O ideal é que ele não entre sozinho no negócio se não quiser arriscar perder o valor integral investido. É possível fazer uma parceria com outros empresários, assim dividindo a quantidade de dinheiro aplicada na ideia”, conta Aronchi.

A parceria contratual funciona em parte como nas grandes empresas. O investidor anjo recebe uma porcentagem de participação no projeto, que é descrita em contrato. “Os números variam, mas normalmente ele fica com algo em torno de 3% a 12%”, conta Aronchi. No mesmo contrato, também é definido o tempo em que o empresário deve ficar na startup.

“Existem cláusulas contratuais que podem contribuir na proteção do empreendedor ou investidor, as quais recomendamos que sejam feitas logo no início da negociação. Porém, ressaltamos que o acordo deve ser proporcional ao estágio em que a empresa se encontra, evitando criar muitas complicações a ponto de impedir a realização do investimento”, explica Spina.

Ganhar dinheiro man-978905_640

O investidor anjo que coloca dinheiro em um negócio sabe muito bem que as chances de retorno não são 100% garantidas. Entretanto, na hora de fechar parcerias, a maioria confia em seus conhecimentos e até mesmo nos instintos.

Aronchi explica que existe uma opção para evitar imprevistos e, de certa forma, “garantir” lucro. “Recomendamos que sejam feitos dez investimentos ou mais ao mesmo tempo. Assim, se alguns negócios não derem lucro, os outros podem compensar”, explica.

É necessário ser paciente e confiante, já que o tempo de retorno do aporte demora alguns anos. Segundo o consultor do Sebrae, a chegada do lucro leva em média três anos para investimentos de crescimento rápido, por exemplo, varejos. Em casos mais difíceis, dependendo do segmento, o processo pode levar de cinco a sete anos.

Escolher uma ideia

A hora de escolher um projeto é crucial para um investidor anjo. Antes de decidir qual caminho tomar, alguns critérios devem ser analisados. Para evitar erros, indica-se que ele invista em áreas que conhece e que já tenha experiência.

Para Aronchi, o principal deles é a equipe. “Costumamos dizer que o investidor não escolhe o cavalo, e sim o jóquei”, conta. Isso porque não adianta investir em uma ideia maravilhosa se os membros da equipe não forem capacitados. A parceria funciona como um casamento, e exige confiança, empatia, respeito e determinação. Desentendimentos são a última coisa que os investidores querem, já que aumentam as chances de o negócio dar errado.

O consultor destaca que, além de ser confiável e ter uma boa relação com o investidor, uma equipe ideal deve ter três requisitos. “É raro investir em uma cabeça só. Normalmente os anjos procuram times com três tipos de pessoas: um bom administrador, um especialista em marketing e um vendedor convincente”, afirma.

Também é necessário pensar no mercado e na barreira de entrada. “O ideal é avaliar se a oportunidade é real, grande o suficiente e se pode ser monetizada”, conta Spina. Ele também explica que a solução proposta pela startup deve ser inovadora e difícil de copiar. “Eu, por exemplo, procuro por startups que podem construir uma vantagem competitiva e impor barreiras de entrada para competidores”, afirma.

A escalabilidade é outro fator que deve estar sempre em pauta. O negócio tem capacidade de crescer rapidamente em termos de lucro e, enquanto isso, manter as despesas na proporção inicial? O ideal é que durante o desenvolvimento as despesas, como a produção de produtos, sejam pequenas e bem menores do que o valor do lucro.

Por último, mas não menos importante, é preciso pensar no futuro. Negócios que têm potencial para conquistar novos mercados devem estar sempre na lista de preferência dos investidores anjos. A possibilidade de atuar em diferentes estados e até no mercado internacional é sempre um grande atrativo.

 

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