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Startup e crowdfunding: unidos pelas suas ideias

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Especialistas em pequenos empreendedores dão dicas para fazer sua ideia decolar e explicam como usar o financiamento coletivo para concretizar objetivos

O ano é 1990 e o boom da internet chama a atenção dos empreendedores. A rede atrai investidores dispostos a apostar em projetos ousados e sem concorrência direta. Logo, essas ideias exclusivas tornam-se base de empresas e são batizadas de startups.

Além da originalidade, outra das principais características dessas companhias é seu potencial para crescimento rápido. Gigantes como Facebook e Google já foram startups que, com bons modelos de negócio, conseguiram atingir um grande número de clientes e gerar lucro em pouco tempo.

Mas a falta de concorrentes não anula as chances de fracasso. Mesmo que em fase inicial as empresas consigam manter-se, o auxílio de investidores e a adaptação ao mercado nacional é essencial para crescer. Caso contrário, a falência será um destino tão real quanto a possibilidade de sucesso.

Para manter-se firme e ganhar espaço, a ajuda de desconhecidos que se identificam com a ideia e principalmente de investidores-anjos pode ser determinante. Enquanto isso, o financiamento coletivo pode dar aquela mãozinha que faltava para tirar projetos interessantes do papel. Para entender como funciona o processo de criação e administração de uma startup e as ações de financiamento coletivo, a Revista W conversou com uma série de especialistas.

Novidade
Diferentemente de uma empresa convencional, que surge sem nenhum diferencial em relação às concorrentes, as startups têm como principal característica a originalidade. “Elas são, em sua maioria, companhias que buscam soluções inovadoras para um problema real ainda não explorado”, define Caio Spina, fundador da Anjos do Brasil, responsável por investir nesses novos empreendedores.

Ligadas a um mercado novo, que ainda não está formado de maneira plena, grande parte delas tem foco em áreas como tecnologia da informação – softwares, aplicativos, pagamento on-line. E a junção de inovação com tecnologia é a receita certa para crescer e lucrar de forma rápida.

Pedro Teixeira é agente de aceleração da Tropos Lab – Laboratório de Negócios Inovadore, empresa que oferece cursos de inovação para empreendedores. Ele diz que o grau de diferenciação de uma tecnologia também é fundamental para o sucesso. “Startups com objetivos muito difíceis de serem copiados tendem a chamar mais a atenção de investidores”, comenta.

“Muitos desses projetos nascem de ideias trazidas de fora do País para serem transformadas em versão brasileira”, diz Yuri Gitahy, membro do conselho da Associação Brasileira de Startups. Mas, segundo ele, não é porque sua principal característica é o diferencial que necessariamente o projeto dará certo. “Vai depender da forma como é executado por aqui e, principalmente, do mercado nacional”, comenta. Outro tópico que pesa sobre as empresas é a cultura local. “O que atrai o público norte-americano pode não atrair o consumidor brasileiro.” Segundo o membro do conselho da ABStartups, se esse for o caso, a startup provavelmente morrerá se não for capaz de fazer adaptações aos padrões culturais do País.

Por isso, é fundamental que o empreendedor busque conhecimento e capacitação para entender o mercado e possa atendê-lo da melhor forma. Além disso, ser flexível e aberto a mudanças necessárias também aumenta a possibilidade de o projeto dar certo.

Equipe
A equipe também é responsável pelo crescimento da empresa. “Não importa se o time é pequeno; se ele funciona bem, vai deixar mais fácil a tarefa de atrair investidores”, diz Gitahy. Pelo fato de seus modelos de negócio ainda estarem em processo de avaliação e aceitação, Spina diz que as startups precisam de uma equipe empenhada. “Esse time deve ter capacidade de realização e flexibilidade para lidar com todos os desafios do processo”, conta. Para isso, o membro do conselho da ABStartups aconselha a realização de workshops sobre empreendedorismo e mercado.

De acordo com Teixeira, os cursos irão suprir qualquer déficit na formação acadêmica dos funcionários. “Além disso, o conhecimento no mundo das startups muda com velocidade exponencial, por isso, quem não se atualiza morre cedo”, completa.

Investimento
É muito comum que as startups recebam ajuda de familiares, amigos e desconhecidos que se identificam com o projeto – prática que os especialistas chamam de “os 3 Fs” (family, friends and fools). Por isso, Gitahy aconselha às empresas que no primeiro ano de vida façam investimentos com o dinheiro próprio. Assim, quando já tiverem certa estabilidade e um número razoável de vendas consolidadas, têm mais chances de encontrar um investidor-anjo, por exemplo.

Spina explica que esse tipo de investimento funciona com troca de participação societária, ou seja, o investidor torna-se sócio (não executivo) da empresa. “Muito mais do que recursos financeiros, essas pessoas investem seu conhecimento, experiência e relacionamento para aumentar a visibilidade do negócio no mercado”, diz.

Riscos
A exclusividade e as ideias originais, ao mesmo tempo que são o grande trunfo das startups, podem ser agentes ativos no fracasso das empresas. “O fato de o público não ter familiaridade com os conceitos inovadores das companhias faz com que a taxa de mortalidade desses empreendimentos seja alta”, comenta Gitahy. Segundo ele, cerca de 25% não sobrevive nem ao primeiro ano de negócio.

A falta de experiência em empreendedorismo, porém, ainda é a maior dificuldade encontrada na administração dessas empresas. Segundo Gitahy, muitas vezes, os fundadores ainda são muito jovens e não têm o preparo necessário para manter um negócio com tal potencial de crescimento.

Há uma série de outras pedras que podem atrapalhar o caminho das companhias. Segundo Teixeira, o mais significativo dos problemas está no próprio empreendedor. Ele comenta que as instituições de ensino preparam o aluno para trabalhar para outra pessoa e não para empreender. “Por isso, quase ninguém está pronto para começar o próprio negócio, mesmo que tenha aptidão para tal.”

Financiamento coletivo
Enquanto startups são tendências para alavancar inovações, o crowdfunding – financiamento coletivo – pode ser um grande aliado na realização de projetos paralelos.

O termo denomina a prática de obter um capital inicial para projetos de interesse coletivo por meio de várias fontes de financiamento. Em geral, os investidores são pessoas físicas que se interessam ou se identificam com as iniciativas e, de forma on-line, doam quantias aleatórias para o dono da ação.

O agente de aceleração da Tropos Lab acredita que é difícil descrever casos em que a prática é mais adequada, já que cada empresa adota uma estratégia financeira diferente. “No entanto, crowdfunding geralmente é mais efetivo quando se tem um ideal forte ou um produto físico para materializar o financiamento”, diz.

“A prática é uma boa maneira de testar a aceitação de seu serviço ou produto com clientes reais”, conta Spina. Segundo ele, é uma boa maneira de verificar se o público está disposto a pagar para que aquilo saia do papel. No entanto, Yuri não aconselha que os empreendedores financiem uma empresa por meio do financiamento coletivo. “Isso porque todas as pessoas que ajudarem no investimento, em parte, serão donos da startup também”, diz. Segundo ele, a prática pode tornar-se fatal caso algum dos investidores on-line venha a ter problemas na justiça. “Fundar uma companhia por meio de crowdfunding é uma escolha muito arriscada, não vale a pena”, completa.

A primeira plataforma de financiamento coletivo chegou ao Brasil em janeiro de 2011 com o nome de Catarse. Anthony Ravoni, assessor de comunicação da equipe, conta que a ideia de trazer o modelo para o País surgiu com o encontro de diferentes grupos de interesse comum. “O objetivo era promover o financiamento de projetos que ficavam engavetados por falta de opções”, diz.

Como funciona
No Catarse só são aceitos modelos bem-feitos de realizadores que estudam e planejam suas campanhas. Segundo Ravoni, projetos que alcançam o interesse público ou que conquistam um grande número de interessados têm chances mais altas de conseguir apoiadores pelo site.

Antes de serem incluídos na plataforma, os projetos passam por um processo de curadoria para checar se estão de acordo com a proposta do Catarse. Depois de aprovado, ele é aberto e os realizadores podem divulgar suas ideias para o mundo. “A partir daí, as pessoas podem apoiá-lo financeiramente para que o empreendimento saia do papel”, diz Ravoni.

As empresas têm um prazo entre um e 60 dias para financiarem por completo seus projetos, “e ao fim do tempo limite, temos duas opções que chamamos de tudo ou nada”, comenta Ravoni. Quando bem-sucedido, o dono da ideia fica com todo o dinheiro arrecadado, mesmo se o valor tiver ultrapassado a verba necessária. Se ele for malsucedido e o objetivo financeiro não for atingido, a Catarse devolve o dinheiro aos apoiadores e a empresa não leva nada.

Pode parecer fácil, mas ser bem-sucedido em um projeto de financiamento coletivo é trabalhoso. Ravoni conta que é muito arriscado, já que se deve trabalhar sem garantia de que conseguirá o dinheiro. Por isso, além de confiança e empenho, é essencial estar preparado para um resultado de conversão que não é o esperado. No entanto, a chance de fracasso não tira seu posto de “braço direito” de startups, afinal o financiamento coletivo pode ajudar a alavancar ainda mais essas ideias inovadoras.

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