Entrevistas

Entrevista: Contra os boatos na internet

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Criador do e-Farsas conta como, há mais de 15 anos, luta para acabar com as mentiras compartilhadas na web

Gilmar Lopes é criador do site e-Farsas (www.e-farsas.com), que atualmente está hospedado no Portal R7. Com mais de 120 mil seguidores no Facebook, o analista de sistemas se dedica a tentar desmascarar fatos que são divulgados e difundidos na web como verdadeiros. A tarefa, claro, não é fácil: diariamente, as pessoas são bombardeadas por e-mails que dizem que quem compartilhar tal mensagem ganhará rios de dinheiro. É comum ver compartilhamentos em redes sociais de vídeos que garantem que um coral de anjos foi filmado em plena luz do dia.

Com uma experiência de mais de mais de 15 anos tentando descobrir a verdade no mundo digital, Lopes conta como começou com o site e o que aprendeu nessa trajetória e ainda explica como reconhecer boatos virtuais com uma rápida análise.

Revista W: Como começou essa história de revelar mentiras compartilhadas pelas pessoas?

 Gilmar Lopes: Acho que foi em 1999, mais ou menos. Eu não trabalhava com tecnologia e recebia vários e-mails pedindo para compartilhar aquela mensagem porque uma criança seria salva, porque quem o fizesse ganharia dinheiro. Lembro que recebi uma mensagem dizendo que a America Online (AOL) daria uma grana para quem passasse um e-mail X para a frente. Até então, eu sempre compartilhava essas mensagens sem pensar. Nesse caso, eu resolvi ligar na AOL e checar. Disseram que era mentira. Então, comecei a desmentir essas coisas para meus amigos e aí acabei criando o site, em 2002.

W: No dia primeiro de abril de 2002.

GL: Pois é. A data é emblemática. Fiquei fazendo o site por uns 8 anos, sem ganhar nada. Aí apareceu o R7 e me convidou para entrar no portal. Isso foi ótimo, porque cresceu a audiência do e-Farsas, passei a ficar mais conhecido e também ter mais credibilidade.

W: Vira e mexe, você desmente reportagens dadas em grandes portais. Recentemente, por exemplo, você revelou que a história de um bebê chinês que havia ficado cego com um flash de câmera fotográfica era balela. Até a BBC deu a reportagem, bem como muitos portais. Como você vê isso?

GL: Eu não cheguei a afirmar que era mentira. Entretanto, comecei a pesquisar a história de trás para a frente, até achar a fonte original. A BBC indicou o Daily Mail, um jornal inglês que não é nada confiável.

W: Se for duvidoso e o jornal colocar na conta do Daily Mail, é provável que seja lorota, certo?

GL: Pois é. E eles indicavam um site chinês como fonte. Esse site citava um canal de TV, também da China. Fui longe e não achei informações que dariam veracidade à história, como nome dos envolvidos, locais, datas. Aí, comecei a pesquisar o que os médicos diziam a respeito do assunto e a maior parte contava que era praticamente impossível cegar alguém com um flash. Então, não dá para afirmar categoricamente que é mentira a história, mas ela tem todos os indícios de ser conversa fiada.

W: Você fala em indícios. Há uma anatomia padrão em hoax, certo?

 GL: Há. Geralmente, uma notícia falsa possui características muito marcantes. Ela cita pessoas ou instituições para conseguir mais credibilidade, rec0rre a nomes inexistentes, cargos pomposos e companhias que não existem. Hoax não são datados, para que o leitor sempre tenha a impressão de que a notícia é recente. Possui um texto incoerente e confuso, há ausência de fontes e tem tom conspiratório. Palavras em letras maiúsculas e  coloridas para chamar a atenção do leitor, como “URGENTE”, “ATENÇÃO”, “LEIA ESTA MENSAGEM”, são frequentes. Por fim, a mensagem mistura fatos reais com ficção.

W: Já houve alguma notícia que você teve até vergonha de ter de desmentir, dada a absoluta demência da coisa?

 GL: De cabeça, lembro-me de um vídeo que circulou nas redes sociais que dava conta de que um cinegrafista da Record havia filmado um coral de anjos no céu. Era uma produção ficcional que, orginalmente, foi feita por um rapaz que trabalhava com vídeos. No final, inclusive, havia créditos que de era ficção. Alguém simplesmente apagou o final e passou para a frente com a história do cinegrafista. Quando desmenti, ainda fui muito criticado porque as pessoas achavam que eu, tendo um site filiado ao grupo Record, que é ligado a uma instituição religiosa, deveria apoiar a filmagem de anjos e não desmentir.

W: E você já caiu em alguma dessas pegadinhas ou é imune a isso?

GL: Na maior parte das vezes, checo muito. Já começo desconfiando. Quando apareceu a história de que o ditador da Coreia do Norte exigiu que todos os homens de seu país tivessem o mesmo corte de cabelo que ele, deu trabalho descobrir a verdade. Era uma piada interna de um site sobre a China, que é atualizado nos Estados Unidos. No final, nem precisava pesquisar muito: só esperar umas semanas e aguardar fotos das pessoas na Coreia do Norte: todos estavam com cabelos diferentes.

W: Você sempre checa pela internet ou entra em contato com as fontes, como fez com a AOL?

GL: Normalmente, pelas fontes na internet é possível ir longe. Eventualmente, eu ligo. Uma vez, fui enganado justamente por conta disso. Começou a circular uma imagem de uma manchete de um jornal de Minas Gerais que dizia algo como “acidente mata 4 pessoas e uma mulher”. Liguei para checar e me disseram que a imagem tinha sido manipulada. Que a chamada completa era “acidente mata 4 pessoas e uma mulher fica ferida”. Contei essa história no e-Farsas. Dias depois, me mandaram um exemplar impresso com a chamada completa e realmente estava “acidente mata 4 pessoas e uma mulher”. Tive que fazer uma atualização, retificando.

W: A que você credita esse compartilhamento desmedido de boatos e demais bobajadas na web?

GL: As pessoas tendem a acreditar no que leem. Já a reprodução da imprensa, acredito, ocorre pela velocidade em que se deve dar a notícia. Como eu não tenho pressa, não trabalho contra o tempo, posso apurar com calma, correr atrás das histórias. Se há pressão e cobranças, a coisa tende a sair pior. É o caso da morte do humorista Gibe.

W: Que fazia o personagem Papai Papudo?

GL: Isso. Quando ele morreu, diversos sites, na pressa de publicar, pegaram uma foto do Papai Papudo e toda família Bozo na internet. E boa parte das páginas usou a mesma imagem. O problema é que se tratava de uma montagem: havia toda a Família Bozo, com a Vovó Mafalda, o Papai Papudo e um cidadão qualquer sorrindo.

W: Há uma receita para não cair nesses hoax ou, pelo menos, desconfiar?

GL: Deve-se usar o bom senso. Se a coisa parece muito estranha, então há uma boa chance de ser mesmo uma mentira.

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