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Web designer revela tudo o que você precisa saber sobre flat design, o visual que invadiu interfaces de sites, de apps e até do iPhone

Os dias de ilustrações e ícones realistas se foram. No lugar, ficaram as técnicas de design minimalistas, as cores fortes e chapadas e a tipografia simples. O chamado flat design dominou. O web design está sempre em constante mudança, mas saber extrair corretamente as tendências é o caminho para não cair em armadilhas do modismo e acabar perdendo um projeto por causa de prazos de validade. Para descobrir como evitar isso, o designer Willian Matiola, editor-chefe do site brasileiro Choco La Design contou para a Revista W se vale a pena investir neste visual e revela previsões para onde deve evoluir o visual flat.

Uma pitada de minimalismo
As interfaces flat ganharam a cena após o redesign da Microsoft para o Windows 8. Eram tempos em que a Apple mergulhava no design com ícones realistas para o iOS. E então, vieram as live tiles, com seus quadrados vibrantes e ícones simples, na maior mudança de visual já feita no sistema operacional da companhia. Era de se esperar que os comentários sobre o novo design se espalhassem. Até então, nenhuma outra grande empresa de tecnologia havia apostado na tendência de forma tão radical.
Uma infinidade de abordagens começaram a aparecer e com elas, inúmeras dúvidas sobre o que, de fato, poderia entrar na categoria de flat design. “A tradução seria algo como ‘Design Plano’. É um método que não inclui efeitos 3D nos elementos, como sombras, gradientes, chanfros ou relevos”, explica Willian Matiola. “A tendência preza por cores sólidas e, geralmente, por elementos planos, mas não se descarta a possibilidade de aplicar efeitos de profundidade nesses elementos, formando o que é chamado de ‘quase flat’”, conclui.

A simplicidade e o uso de elementos minimalistas enfatizam a usabilidade e funcionalidade em uma interface. Mas Matiola explica que a premissa não é regra: “O flat design tem a ver com o minimalismo porque se utiliza de formas simples e a exclusão de excessos em sua composição, mas isso não quer dizer, necessariamente, que ele será mais funcional do que um projeto que use elementos estéticos mais elaborados”. Ele cita como exemplo o visual antigo do iOS, que mesmo com ícones mais trabalhados não deixou de ser navegável. “No fim, o que torna uma interface funcional é o uso correto dos elementos estéticos, independente do estilo que a pessoa adote”.

Antes de optar pelo visual flat, é importante colocar os prós e contras na balança. Espere para começar a simplificar ilustrações. Qualquer linha de design precisa ser seguida com planejamento, seja para encher um ícone de detalhes ou apagar tudo e começar com um grande círculo vermelho vivo para um botão.

Os porquês
Escolher o flat design significa cortar excessos ao extremo. Mas é preciso cuidado. Subtrair detalhes sem antes filtrar o que merece ficar pode fazer com que alguma parte de uma interface acabe perdendo algo importante. Por outro lado, também se enganam aqueles que acreditam que o flat é capaz de empobrecer o design. O minimalismo não precisa ser chato. A essência do flat design está em garantir o foco do usuário na navegação. Sem contar que criar esse tipo de visual exige menos do profissional de design e pode ser uma boa opção para projetos multiplataforma. “O usuário pode ficar livre das distrações visuais e desfrutar de uma experiência mais agradável.

Outra vantagem desse estilo para sites e apps é a facilidade de desenvolvimento e manipulação em diferentes tipos de resolução, já que a maioria dos elementos podem ser feitos a partir de códigos ao invés de imagens”, explica Matiola. A performance de páginas que usam o design pode, então, ser melhor pelo simples fato de carregar o essencial. “Em contrapartida, a grande desvantagem do flat design são as inúmeras interfaces semelhantes que vemos por aí, que parecem ter saído de uma linha de montagem. Como o estilo é extremamente simples, fica mais difícil se diferenciar dos outros visuais, porque todo mundo acaba usando as mesmas cores, as mesmas tipografias e os mesmos elementos geométricos” alerta o designer.

Muitos especialistas criticaram essa espécie de “pasteurização” do design de interfaces, justamente por temerem a falta de criatividade. Depois que a Apple aderiu à técnica no design do iOS7 e o Google em seu logo, o flat continuou a se popularizar. Alguns rumores na web mostram que talvez a nova versão do Android também venha com a estética. Todos querem ser flat e no mobile, mais ainda.

Flat na telinha
O crescimento do uso e da consequente produção de projetos digitais para dispositivos móveis coincidiu com o boom do flat design. Isso pode mostrar que as técnicas usadas no mobile podem ter se tornado grandes incentivadoras desse tipo de estética. “Acredito que as facilidades que os smartphones trouxeram para o acesso à internet, e a infinidade de aplicações ajudaram na popularização do estilo”, concorda Matiola. “Querendo ou não, desenhar interfaces para aparelhos móveis é diferente do que desenhar para desktops, porque é necessário focar somente naquilo que é essencial para o usuário e retirar as distrações visuais.

Portanto, como focar no simples é uma das premissas básicas do desenvolvimento mobile, o flat design veio bem a calhar”. Alguns exemplos de aplicativos famosos, como o Vine, são representantes do visual e mostram que o seu sucesso nas telinhas tem a ver justamente com o aproveitamento de interfaces simples e navegações perfeitas para aquele contexto.

 

Galeria de sites que usam estética flat, para servir de inspiração

Galeria de sites que usam estética flat, para servir de inspiração: http://fltdsgn.com

Na prática
Um dos papéis principais do flat design é ajudar a passar alguma mensagem rapidamente. Há combinações de ilustrações em flat, infográficos e iconografia capazes de transmitir recados com uma eficiência impressionante. A simplicidade é a responsável por facilitar as coisas. Por isso, um dos caminhos para começar a aproveitar o visual flat é saber lidar com todos esses elementos e combiná-los da melhor forma para que se tornem funcionais para o usuário.

“Levando em consideração que o foco do flat design é a valorização das cores planas e tipografias bem trabalhadas, minha dica é: monte uma paleta de cores harmônicas e escolha tipografias que condizem com o seu projeto e trabalhem em conjunto com as cores selecionadas”, aconselha Matiola. “Diagrame sua página com respiros entre os conteúdos e não tenha medo de abusar dos espaços entre os elementos. Procure um sistema de grids, já que ele é seu melhor aliado para dispor conteúdo dentro do layout. E procure referências de projetos bem sucedidos. Inspire-se neles e aprenda com quem já adotou esse estilo”. Experimente, teste e tenha certeza de que fez um bom trabalho Uma boa fonte para se beber é o Fltdsgn uma espécie de galeria com bons exemplos de flat.

Tendências
Assim como no mundo da moda, o design também tem suas tendências passageiras. Seria o flat design uma delas? “É difícil prever se será passageiro ou uma modinha que será substituída pela próxima grande tendência em design”, responde Matiola. “É bem provável que futuramente outra tome o lugar da atual, assim como sempre aconteceu na história da arte e depois, no design”.

Adivinhar o que está por vir é uma tarefa complicada. Estamos diante de uma indústria que mergulhou de cabeça no flat. Mas ontem, interfaces realistas estavam no ápice. “A adoção do flat design mostrou ao mundo que é possível fazer coisas bonitas e funcionais sem exagerar nos elementos gráficos. Mas esse não é o único caminho, tampouco a única solução para resolver problemas de design”, alerta.

Investir em algo passageiro, sem se preocupar em olhar as outras linhas de design é sentenciar um projeto a uma data de morte. “Avalie se o conceito do seu produto está alinhado com o estilo ou se é necessário usar uma abordagem diferente. Adotar um estilo só porque todos estão adotando, não é das soluções mais inteligentes”. Fica a lição sobre a moda de design: não deixe que tendências matem a criatividade.

*Entrevista publicada originalmente na edição 160 da Revista W (todos os direitos reservados). Toda e qualquer reprodução deve citar a fonte. 

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